Tabela de preço de mão de obra de marceneiro serve de referência, não de lei. O que fecha o orçamento é transformar salário (ou pró-labore) em hora produtiva e aplicar essa hora nas horas reais do projeto. Sem isso, você paga gente certo e cobra cliente errado.
Abaixo: como ler faixas, o que muda por região, e como a mão de obra entra no preço do projeto sem chute.
Por que "tabela pronta" engana
Blog na internet solta faixa tipo R$ 2.000 a R$ 6.000 e parece resolvido. Na oficina real:
- Custo de vida em capital ≠ interior
- CLT com encargos ≠ MEI ajudante ≠ sócio que "não se paga"
- Marceneiro que só corta ≠ quem monta e instala obra complicada
- Produtividade (horas que de fato produzem) muda o custo por peça
Copiar tabela sem adaptar é cover ruim de Zeppelin: a melodia parece familiar, o groove não encaixa.
Faixas ilustrativas (salário / remuneração)
Use como ponto de partida pra conversa de RH e pra estimar custo, não como tabela oficial do Brasil:
| Nível | Perfil típico | Faixa mensal ilustrativa (R$) | Observação |
|---|---|---|---|
| Iniciante | Auxiliar, tarefas simples | 2.000 a 3.000 | + VT / VR conforme regra |
| Intermediário | Produção autônoma, boa qualidade | 3.500 a 4.500 | Menos retrabalho |
| Avançado | Complexo, liderança de bancada | 5.000 a 6.500+ | Retém talentos caros |
Esses números não incluem automaticamente todos os encargos. Se for CLT, some provisões (INSS, FGTS, 13º, férias, etc.) ou use o custo total que seu contador passar. Se for você sozinho, o "salário" é pró-labore + o que a oficina precisa sobrar.
Benefícios (VR, plano, etc.) entram no custo mensal da mão de obra, não são detalhe moral separado da conta.
Do salário à hora produtiva
Passo 1: custo mensal total da pessoa (ou da equipe)
Exemplo simplificado:
- Remuneração: R$ 4.000
- Encargos / provisões (exemplo): R$ 1.600
- Benefícios: R$ 400
Custo mensal ≈ R$ 6.000
Ajuste aos seus números reais.
Passo 2: horas que de fato produzem
Mês tem ~176 a 220 horas "de cartão". Produtivas costumam ser bem menos:
- Setup de máquina
- Limpeza
- Busca de material
- Retrabalho
- Espera de obra / cliente
Oficina organizada pode trabalhar com 120 a 150 h produtivas/mês por pessoa como hipótese de partida. Meça a sua. Se assumir 220 e a realidade for 130, sua hora está subprecificada.
Passo 3: hora de custo
Hora de custo = custo mensal ÷ horas produtivas
Ex.: 6.000 ÷ 140 ≈ R$ 43/h só de custo.
Passo 4: hora de venda (o que você cobra no projeto)
Em cima da hora de custo, entra margem da oficina e risco. Muitos partem de multiplicar ou de embutir a margem no preço final do projeto. O ponto: não use o salário líquido dividido por 220 como se fosse preço de venda.
Como usar no orçamento do móvel
- Estime horas: corte, usinagem, montagem, instalação, revisão.
- Multiplique pela hora (custo + margem, conforme seu método).
- Some material e fixo rateado.
- Feche o preço com escopo escrito.
Projeto "simples" de 20 h e projeto "igualzinho" com 45 h não podem sair pelo mesmo valor só porque o cliente acha que "é um armário".
| Etapa | Horas (exemplo) | Nota |
|---|---|---|
| Corte / usinagem | 12 | Depende de lista de peças |
| Montagem na oficina | 8 | Ferragem e ajuste |
| Instalação | 10 | Obra limpa ou caos |
| Revisão | 2 | Combinar limite |
| Total | 32 | × sua hora |
O que muda a "tabela" na prática
Complexidade
Cantos, iluminação, portas especiais, material delicado: mais hora ou hora mais cara. Os dois se o risco for alto.
Experiência
Profissional avançado custa mais no mês e muitas vezes baixa o custo por peça (menos erro). Barato e lento sai caro.
Região e tipo de cliente
Obra de alto padrão em capital aguenta (e exige) mão de obra mais cara. Volume popular no interior é outro jogo. Não force a mesma tabela nos dois públicos.
Produtividade esperada
Quem entrega com qualidade e prazo justifica remuneração melhor. Quem gera retrabalho constante não "compensa" com salário baixo: o prejuízo vai no orçamento e na reputação.
Erros comuns
- Pagar salário justo e esquecer de cobrar a hora no projeto.
- Misturar hora do dono (que "não se cobra") com custo real: você trabalha de graça e chama de lucro.
- Tabela de blog sem encargos.
- Hora cheia (220) como se fosse produtiva.
- Desconto no fechamento comendo só a mão de obra "invisível".
Remuneração de equipe vs preço ao cliente
São duas contas:
- RH: quanto pagar pra reter gente boa e dormir tranquilo.
- Comercial: quanto cobrar pra esse custo caber com margem.
A tabela de salário alimenta a segunda. Não substitui como precificar.
Exemplo completo: do salário ao preço do módulo
Imagine um marceneiro intermediário:
- Custo mensal total (com encargos e VR): R$ 5.600
- Horas produtivas medidas: 130
- Hora de custo: 5.600 ÷ 130 ≈ R$ 43
Você decide trabalhar com margem de 30% sobre o preço no pacote do projeto (não só na hora). Um módulo que leva 18 h de produção + 4 h de instalação:
- Horas: 22 × R$ 43 = R$ 946 de custo de mão de obra
- Material do módulo: R$ 1.100 (com sobra)
- Fixo rateado: R$ 180
- Custo parcial: R$ 2.226
- Preço com 30% de margem: 2.226 ÷ 0,70 ≈ R$ 3.180
Se você tivesse usado "salário 4.000 ÷ 220 = R$ 18/h" e multiplicado 22 h, a mão de obra no papel seria R$ 396. Diferença brutal. É assim que oficina "cheia de serviço" não sobra nada no fim do mês.
Dono que se cobra (e quem não se cobra)
Oficina solo: se você não coloca hora de dono no projeto, está trabalhando de graça e chamando de lucro. Três jeitos honestos:
- Pró-labore mensal dentro do custo fixo rateado
- Hora de dono explícita em cada orçamento
- Mix: pró-labore baixo no fixo + hora extra em projeto complexo
Escolha um e mantenha. Mudar a regra a cada cliente é pedir inconsistência.
Terceiro e instalação externa
Se a instalação é de equipe parceira, o valor dela entra como custo direto (nota/orçamento do terceiro) + sua margem de coordenação, se fizer sentido. Não embuta "de olho". Peça número, some, aí sim feche o preço ao cliente. Guia irmão: como cobrar instalação.
Quando reajustar a tabela de mão de obra
- Reajuste salarial ou de pró-labore
- Mudança forte de produtividade (nova máquina, novo processo)
- Troca de perfil de projeto (você parou de fazer "miudeza" e só pega obra pesada)
- Encargos / regime tributário mudaram
Anote a data da hora vigente. Orçamento antigo com hora velha, sem validade, é prejuízo anunciado.
Checklist
- Custo mensal total (salário + encargos + benefícios)
- Horas produtivas reais (não só cartão)
- Hora de custo calculada
- Método claro de embutir margem
- Estimativa de horas por tipo de projeto
- Regra pro dono / sócio
- Terceiros com número escrito
- Revisão anual (ou quando salário/material mudar)
Resposta curta
- Tabela de preço de mão de obra de marceneiro: referência de faixas; adapte à região, encargos e perfil.
- O que importa no orçamento: hora produtiva × horas do projeto.
- Não use salário ÷ 220 como preço de venda.
- Link útil: margem de lucro e custos fixos.
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