Custos fixos na marcenaria são as despesas que não param quando a serra desliga: aluguel, luz, internet, salário de quem não está num projeto, depreciação de máquina, contador, seguro, software. Você soma tudo por mês, divide pelas horas produtivas e embute no orçamento antes da margem. Sem isso, cada móvel "lucrativo" na planilha pode estar só pagando o aluguel.
Este guia é só sobre calcular e ratear o fixo. Para a fórmula completa (material + MO + fixo + margem), o pilar é como precificar marcenaria. Aqui a gente afunda na conta mensal que alimenta qualquer método: hora, m² ou módulo.

Por que fixo ignorado é trabalhar no prejuízo bonito
Muita marcenaria pequena precifica material + hora do marceneiro na obra e chama o resto de "custo da casa". O problema é que a casa não é de graça. Aluguel, CNC parado, estagiário organizando ferragem, assinatura do AutoCAD: tudo isso existe no dia em que você não vendeu nada.
É igual banco de reservas que ninguém paga: no treino todo mundo acha que dá pra improvisar. Chega janeiro fraco, duas obras atrasadas e você descobre que estava jogando com 10 jogadores o campeonato inteiro.
Cliente não vê seu fixo. Ele vê o preço do armário. Se o número não carrega a estrutura, você financia a oficina com desconto que nunca botou na proposta.
O que entra em custos fixos (e o que não entra)
Conta no fixo mensal
| Item | Exemplo / observação |
|---|---|
| Aluguel ou financiamento da oficina/showroom | Inclui condomínio se tiver |
| Energia, água, gás, internet, telefone | Média dos últimos 3 meses é mais honesta que a conta de um mês só |
| Salários fixos | Office boy, financeiro, projetista, sócio que não está na obra o dia todo |
| Encargos e pró-labore | INSS, FGTS, 13º, férias proporcionais (mesmo que você pague "por fora", precisa existir no cálculo) |
| Depreciação de máquinas | Esquadrejadeira, coladeira, CNC, compressor: valor de compra dividido pela vida útil em meses |
| Manutenção recorrente | Afiação, técnico CNC, troca de correia (não é custo variável da obra X) |
| Ferramentas consumíveis de oficina | Broca, disco, fita que some no mês sem ir pra um projeto só |
| Software e assinaturas | CAD, ERP leve, e-mail, backup |
| Contador, jurídico, seguro | PJ sem contador é fixo que vira multa depois |
| Marketing mínimo | Site, cartão, combustível de visita genérica (se não ratear por obra) |
| Material de escritório e limpeza | Papel, sabão, lixo: pequeno, mas soma |
Para a distinção oficial entre fixo e variável no fluxo de caixa, o SEBRAE explica despesas fixas e variáveis de forma genérica (vale traduzir pro chão da oficina).
Não misture com custo variável da obra
- MDF, ferragem, cola daquele armário: variável, vai no projeto.
- Frete só da entrega do cliente Y: variável.
- Hora do montador na obra Z: variável (mas a hora precisa carregar parte do fixo, veja abaixo).
- Imposto sobre a nota da venda: tratamento separado (alguns somam depois da margem; o importante é não esquecer em lugar nenhum).
Confundir fixo com variável é tipo confundir baixo com guitarra solo: um segura a música, o outro aparece na hora. Os dois importam, mas não são a mesma linha na planilha.
Passo a passo: calcular o fixo do mês
1. Some tudo que a oficina gasta sem obra na mão
Abra extrato, boletos e folha. Faça uma planilha simples (ou use uma alternativa à planilha se a sua vive desatualizada):
Aluguel + condomínio R$ _____
Luz / água / internet R$ _____
Salários fixos + encargos R$ _____
Pró-labore sócios R$ _____
Depreciação máquinas R$ _____
Manutenção / ferramenta R$ _____
Contador / seguro / soft R$ _____
Outros fixos R$ _____
---------------------------------
TOTAL FIXO MENSAL R$ _____
Use média de 3 a 6 meses se o negócio oscila. Janeiro e julho mentem.
2. Defina horas produtivas reais (não horas de fábrica aberta)
Oficina aberta 8 h por dia não são 8 h faturáveis. Tem café, organização, orçamento, visita, retrabalho, cliente que atrasa.
Exemplo honesto para oficina pequena:
- 2 marceneiros + 1 ajudante
- 22 dias úteis
- 6 h produtivas por pessoa por dia (não 8)
Horas produtivas no mês = 3 pessoas x 22 dias x 6 h = 396 h
Ajuste com sua realidade. Se você sozinho faz tudo, seja mais conservador: 4 a 5 h produtivas em dia de 8 h não é vergonha, é oficina de verdade.
3. Ache o custo fixo por hora
Custo fixo por hora = Total fixo mensal ÷ Horas produtivas no mês
Exemplo numérico só pra ilustrar a conta (troque pelos seus números):
- Fixo mensal: R$ 18.000
- Horas produtivas: 396 h
- Fixo por hora ≈ R$ 45,45
Cada hora que você coloca no orçamento precisa carregar esse pedaço antes da margem de lucro que você quer no bolso.
4. Ou use percentual sobre custo variável
Algumas oficinas preferem:
Markup de fixo = Total fixo mensal ÷ Faturamento médio mensal (só custo variável coberto)
Se você fatura em média R$ 60.000/mês e o fixo é R$ 18.000, o fixo representa 30% em cima do que entra de material + MO direta (arredonde e teste).
Não existe religião certa entre "por hora" e "por percentual". Existe planilha que você atualiza todo trimestre quando aluguel sobe ou contrata gente.
5. Exemplo fechando o mês inteiro
Oficina com fixo de R$ 18.000, 396 h produtivas, faturamento médio R$ 72.000 (só o que entrou de obra, sem empréstimo):
| Linha | Valor |
|---|---|
| Fixo mensal | R$ 18.000 |
| Fixo por hora (18.000 ÷ 396) | R$ 45,45/h |
| Fixo como % do faturamento (18.000 ÷ 72.000) | 25% |
| Job de 60 h produtivas: rateio fixo na proposta | R$ 2.727 |
Se esse job faturou R$ 15.000 e o custo variável foi R$ 9.000, sobraram R$ 6.000 antes de imposto. Desconta os R$ 2.727 de fixo rateado: R$ 3.273. Aí sim você vê se a margem fez sentido ou se só pagou conta.
Como embutir no orçamento (na prática)
Depois que o fixo mensal está nomeado, você escolhe como ele entra na proposta. O pilar de precificação usa a mesma base; aqui são os três jeitos mais comuns de ratear.
Método A: hora cheia no corte e na montagem
- Calcule hora do marceneiro (salário + encargo + fixo por hora).
- Estime horas do projeto: projeto, corte, fita, montagem na fábrica, instalação.
- Some material com perda real.
- Some terceiros.
- Margem de lucro em cima disso.
Se a hora só paga o cara e não paga a luz, você está subsidiando cliente sem perceber.
Método B: coeficiente no m² ou no módulo
Você calibra a tabela assim:
- Pegue 5 obras fechadas dos últimos meses.
- Some custo variável real de cada uma.
- Compare com o que faturou.
- Veja quanto do faturamento foi embora pro fixo sem você ter nomeado.
Ajuste o R$/m² ou R$/módulo até o mês fechar. Tabela parada há dois anos com aluguel que subiu 20% é cartão amarelo antes do apito final.
Método C: linha "estrutura" invisível no Excel
Alguns somam 15%, 25% ou 35% em cima do custo direto e chamam de "overhead" interno. Funciona se o percentual for calculado, não copiado do vizinho no WhatsApp.
Encargo trabalhista: o fixo que esquece no meio do solo
Hora de funcionário não é só o salário que cai na conta. Tem INSS patronal, FGTS, 13º, férias, vale se tiver, rescisão provisionada. Muita planilha usa R$ 25/h na mão e R$ 18 na realidade de custo.
Conta simplificada (ajuste com seu contador):
Custo hora real ≈ (Salário + encargos mensais) ÷ Horas produtivas do funcionário
Depois soma o fixo por hora da oficina em cada pessoa. Ajudante que só organiza ferragem também tem hora que paga parte do aluguel.
Perguntas que sempre aparecem no grupo
Pró-labore entra no fixo? Sim. Se você tira salário mínimo da PJ todo mês, isso é fixo. Oficina que "não se paga" esconde prejuízo bonito.
MEI tem fixo diferente? A lista é menor (sem folha grande, muitas vezes sem aluguel de galpão), mas aluguel de casa-uso, ferramenta, DAS, internet e depreciação de serra entram. MEI que só multiplica material por 2 também ignora estrutura.
Posso ratear fixo só no último job do mês? Não. Cada orçamento novo carrega a estrutura. Senão o cliente da sorte paga aluguel de todo mundo.
Fixo coberto é lucro? Não. Fixo pago é sobrevivência. Lucro vem depois, na margem sobre preço final. Confundir os dois é a mesma furada de achar que empate no placar já ganhou o campeonato.
Erros clássicos (e como não cair)
Ignorar depreciação da CNC e tratar máquina como se fosse eterna: um dia troca e o caixa sangra.
Não contar seu próprio salário como fixo: você vira o sócio que trabalha de graça e acha que teve lucro.
Ratear fixo só no último projeto do mês porque "os outros já pagaram a conta": cada orçamento novo carrega a estrutura.
Copiar percentual de overhead de vídeo gringo ou de marcenaria com 15 funcionários: escala diferente, fixo diferente.
Esquecer mês sem venda na meta anual: se precisa de R$ 18 mil de fixo e vende 10 meses redondos, a conta mensal útil é maior que R$ 18 mil dividido por 12 ingênuo.
Misturar desconto comercial com fixo: desconto é decisão de venda; fixo é custo. Misturar os dois e você não sabe mais onde perdeu.
Quanto de margem depois do fixo?
Fixo coberto ≠ lucro. Depois de material + MO + fixo embutido, ainda entra:
- Imposto da nota (se PJ)
- Margem de lucro (o que sobra pra investir, guardar, tirar dividendo)
- Reserva pra inadimplência e garantia de ajuste
Regra de bolso que muita oficina usa (não é lei, é ponto de partida): se o custo direto + fixo rateado fechou em R$ 10.000, mandar proposta a R$ 10.500 não é "5% de margem". É suar pra pagar conta. Defina piso mínimo depois de nomear o fixo.
Fixo e orçamento rápido: não são inimigos
Quanto mais tempo você gasta recontando PDF de 40 páginas na mão, menos hora produtiva sobra pra obra que paga o fixo. Orçamento simples às vezes sai rápido; PDF gordo de arquiteto na mão costuma levar 1 a 2 horas só na proposta. Com processo e sistema de orçamento, a primeira versão séria desse tipo de projeto costuma cair pra cerca de 5 a 15 minutos: você revisa e manda, e volta pro corte.
Resposta curta
- Custos fixos = tudo que a oficina gasta sem obra específica (aluguel, luz, salário indireto, máquina, contador).
- Calcule: some o mês → divida pelas horas produtivas reais → ache R$/h de estrutura.
- Embuta na hora de mão de obra ou em percentual sobre custo direto antes do lucro que você quer.
- Atualize a cada trimestre ou quando aluguel, folha ou máquina mudar.
- Precificação completa: volte ao guia como precificar marcenaria quando o fixo por hora já estiver na planilha.
Fixo coberto e hora produtiva valendo ouro: queimar 1h em PDF na mão é pagar aluguel pra ficar na proposta. Jabá honesto, o Orça Pra Mim lê PDF, croqui ou descrição e monta orçamento com sua margem em minutos. Testa com 2 projetos grátis.
